Gostar, não gostar, experimentar, estranhar, provar novamente. A relação das crianças com os alimentos é construída aos poucos e envolve muito mais do que aquilo que chega ao prato.
É comum ouvirmos a expressão “paladar infantil” para descrever pessoas que preferem sabores mais simples ou apresentam resistência a determinados alimentos. Mas o paladar não nasce pronto nem permanece igual ao longo da vida. Ele é construído a partir das experiências de cada pessoa com a alimentação e sofre influência de diferentes fatores, como o ambiente familiar, a cultura, os hábitos, as oportunidades de experimentação e também aspectos biológicos.
Na infância, esse processo ganha uma importância especial. É justamente nesse período que as crianças começam a construir muitas das referências, memórias e relações que terão com os alimentos.
Por isso, mais do que pensar apenas no que uma criança gosta ou não gosta de comer, vale olhar para como ela está tendo a oportunidade de conhecer, experimentar e se relacionar com diferentes alimentos.
Como o repertório alimentar é construído?
A alimentação também faz parte da cultura. Os sabores, aromas, receitas e ingredientes presentes no cotidiano de uma família ajudam a construir aquilo que se torna familiar para uma criança.
Mas familiaridade não significa necessariamente preferência imediata. Diante de um alimento desconhecido, é natural que algumas crianças demonstrem resistência. Por isso, o contato com diferentes ingredientes pode acontecer aos poucos e de muitas maneiras.
A exposição e a experimentação têm um papel importante nesse processo. Ver, tocar, sentir o aroma, conhecer a origem, participar de um preparo ou experimentar um mesmo ingrediente apresentado de formas diferentes também são maneiras de ampliar o repertório.
O exemplo dos adultos e das outras crianças também participa dessa construção. As refeições são momentos sociais e, ao observar outras pessoas experimentando e se relacionando positivamente com os alimentos, a criança encontra novas referências.
E existe ainda um aspecto fundamental: o tempo de cada criança. Experimentar não precisa estar associado à obrigação de gostar. Criar experiências positivas e sem pressão contribui para que a curiosidade possa ocupar o lugar da cobrança.
Um alimento, muitas possibilidades
Um mesmo ingrediente pode proporcionar experiências completamente diferentes dependendo da maneira como é preparado.
Textura, temperatura, aroma, aparência e combinação com outros alimentos transformam a percepção do que chega ao prato. Uma criança que não aprecia determinado alimento em uma preparação pode descobri-lo de outra maneira.
Explorar essas possibilidades é também uma forma de mostrar que a alimentação pode ser um território de descoberta.
É justamente nessa perspectiva que a Quitanda Escolas, parceira do CAMB na alimentação escolar, desenvolve diferentes propostas de educação alimentar com nossos estudantes, aproximando as crianças dos alimentos de maneira lúdica, investigativa e respeitosa.
Mais do que incentivar o consumo de determinado ingrediente, as experiências buscam ampliar repertórios e criar oportunidades para que as crianças conheçam sabores, texturas, aromas e diferentes formas de preparo.
A escola também é espaço de educação alimentar
Se grande parte das referências alimentares começa a ser construída em casa, a escola também ocupa um lugar importante nesse percurso.
No ambiente escolar, a alimentação acontece coletivamente. As crianças observam umas às outras, compartilham descobertas, conhecem novos ingredientes e vivenciam experiências que podem ser diferentes daquelas presentes em sua rotina familiar.
No CAMB, em parceria com a Quitanda Escolas, a educação alimentar faz parte desse cotidiano por meio de propostas que convidam os estudantes a investigar e experimentar.
Em uma das atividades realizadas com os grupos do Integral, por exemplo, um único ingrediente foi o ponto de partida para diferentes descobertas: a couve.
Os estudantes puderam conhecê-la em quatro preparações — couve refogada, salada de couve, couve crispy e Suco da Horta — e perceber, na prática, como um mesmo alimento pode ganhar sabores, texturas, temperaturas e apresentações completamente diferentes.
A proposta não era definir qual versão era “melhor”, mas oferecer possibilidades. Cada criança pôde experimentar, observar suas próprias percepções e construir novas referências a partir da experiência.
Esse mesmo princípio aparece em outras ações realizadas pela parceria entre CAMB e Quitanda: aproximar as crianças dos alimentos pela curiosidade, pelo conhecimento e pela experiência, contribuindo para que desenvolvam uma relação cada vez mais consciente e positiva com a alimentação.
Experimentar também é aprender
Ampliar o repertório alimentar é um processo. Ele acontece com tempo, diferentes oportunidades de contato e experiências que respeitem a individualidade de cada criança.
Nesse percurso, família, escola e alimentação escolar podem atuar de maneira complementar, oferecendo contextos nos quais conhecer um novo alimento não seja uma obrigação, mas uma possibilidade de descoberta.
Porque aprender também acontece à mesa: quando uma criança observa, pergunta, compara, experimenta, descobre um novo sabor — ou simplesmente percebe que pode voltar a experimentá-lo em outro momento.
E é nessa construção cotidiana que o CAMB e a Quitanda Escolas seguem trabalhando juntos, entendendo a alimentação não apenas como parte da rotina escolar, mas também como uma oportunidade de aprendizagem, cuidado e ampliação de repertório.





